Mais que pães e peixes
Por Junio Cesar Rodrigues Lima
Lá estava ele mais uma vez procurando um lugar para descansar, nem que para isso tivésse que atravessar o mar de Tiberíades. Mas, enquanto executava seu plano utilizando um barco, uma grande multidão se apressava dando a volta pela praia.
Seu amigo João Batista estava morto, seu ministério, ameaçado. Entretanto, nem numa hora como aquela conseguia ficar sozinho, ter um tempo para colocar as idéias em ordem. Ao chegar do outro lado lá estava ela, numerosa como sempre, uma multidão de necessitados; gente que seguia Jesus pelos seus milgares, por suas belas palavras ou, até mesmo, pelo simples fato de alguém na sociedade dispensar a ela atenção e cuidado. Cegos, coxos, paralíticos, mendigos, meretrizes, pobres, fariseus, judeus, galileus, publicanos, gente de todo tipo, lugar e idade se aglomerava para receber algum tipo de benção ou cura para suas enfermidades.
O trabalho estava árduo. Toda aquela gente... Impaciente, necessitada, cansada, aglomerada no meio do deserto durante um dia inteiro. A tarde se aproximava, e com ela, o fim do dia. Nas areias do deserto, naquela terra seca, histórias se misturavam, sofrimentos eram compartilhados, interesses aproximados e a escassez logo foi denunciada.
Onde haveria alimento para toda aquela multidão? Nem com 200 dias de trabalho árduo se poderia dar um pão inteiro para cada uma daquelas pessoas. Os discípulos não sabiam o que fazer. Dispensar a multidão seria a única alternativa. Mas, o Mestre dizia que a dispensa era desnecessária. Os discípulos é que deveriam alimentar a multidão. Mas, Como?
Aqui começa a história de um rapaz, provavelmente um menino. Não se sabe seu nome, nem tampouco sua cidade. Não se conhece sua familia, seus sonhos, nem a quanto tempo estava ali no meio do povo. Mas é certo que com a multidão dera volta apressadamente pela margem.
Como muitos da multidão, queria estar perto do Mestre, mas, diferentemente de todos, esse personagem não aparece para pedir ou implorar alguma intervenção de Jesus. Ele aparece simplesmente para compartilhar. Não tinha muito, apenas cinco pães e dois peixes; o suficiente para se alimentar e passar o maior tempo possível com o Mestre e seus discípulos. Este era o seu plano: ficar com Jesus, ouvir seus ensinamentos, observar seus milagres e se tivesse sorte, até atravessar toda uma multidão e falar diretamente com ele.
Cinco pães e dois peixes jamais dariam para alimentar uma multidão. Tratava-se de uma, no máximo duas refeições durante poucos dias. O suficiente para ele apenas. Mas, ainda assim, não hesitou em dividir o que tinha, afinal de contas, quem anda com o Mestre precisa entender que mais bem-aventurado é dar do que receber. O seguidor de Jesus precisa aprender a compartilhar.
Seu pão era de cevada, o que indica sua condição social menos favorável. Seu complemento era peixe, um alimento comum e barato na sua região. Mas, ainda assim, se sentiu encorajado a dividir o pouco que tinha sem exigir nada em troca. Seu plano tinha dado certo. A multidão não foi dispensada; sua estadia com Jesus, prolongada; e ainda teve a oportunidade de se aproximar do Mestre.
Ali, naquele deserto Jesus tomou os pães e os peixes, deu graças e ordenou sua distribuição. A multidão foi recolhendo os pães, pegando os peixes e o alimento, se multiplicando. Um milagre bem pertinho daquele rapaz. As pessoas eram saciadas. Os enfermos continuavam sendo curados. E o rapaz previnido que desejava ardentemente passar dias com o Mestre e que não hesitou quando teve a necessidade de compartilhar tudo o que tinha com o seu próximo entrou para a história como alguém usado por Deus para manifestar a sua providência.
Tudo acabou maravilhosamente bem. O garoto pôde se lembrar das palavras do Mestre quando disse: “não andeis ansiosos por coisa alguma; nem pelo que haveis de comer ou vestir. Observai as aves dos céus que não guardam comida em celeiros, mas diariamente o Pai celestial lhes dá; Deus sabe das vossas necessidades”.
Realmente as horas passadas na presença de Jesus são preciosas, mesmo que o lugar seja um deserto. Aliás, é no deserto que demonstramos nossa disposição para ficar com o Mestre, ouvir suas palavras, enxergar seus milagres e compartilhar o que somos e o que temos, saciando as pessoas. Esse foi maior de todos os milagres, em vez de multiplicar pães e peixes, melhor multiplicar o amor, a misericórdia, a fé e o desejo de estar com o Mestre no meio dos seus discípulos.