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Milagre no Parque São Luiz
Por Rev. Junio Cesar Rodrigues Lima


Lá vou eu em mais uma viagem. O destino trata-se de um pequeno distrito da cidade de Bom Jesus de Itabapuana, por volta de 1954. Minha missão é encontrar uma menina de aproximadamente dezessete anos que teve a ousadia de escrever para o presidente Getúlio Vargas há quatro anos atrás esperando conseguir uma oportunidade de estudar num colégio interno.

Rosal é um distrito pouco desenvolvido. As pessoas são receptivas e a maioria delas trabalha na terra e dela tiram seu sustento. Logo fui conduzido à casa de um homem crente chamado Sr. Manoel Joaquim Barbosa. Perguntei sobre sua menina, seus sonhos e seu destino. Esperava encontra-la bem cedo e retornar para a Capital com uma boa história. Seus olhos brilharam, sua voz embargou, parecia ter um nó na garganta. Convidou-me para entrar e após um delicioso café feito por Dona Nery, contou-me toda história.

Cheguei com alguns dias de atraso. A menina não estava mais lá. Segundo ele, há quatro anos atrás, uma missionária veio até o distrito para pregar no primeiro congresso de jovens presbiterianos em Rosal, trabalho promovido pelo Presbitério de Campos, e fez uma exposição em slides sobre o trabalho missionário entre os índios. A palavra foi tão arrebatadora que, mesmo com treze anos, sua filha caçula teve a convicção de que estava sendo chamada para pregar o Evangelho aos índios. Logo começou a ponderar com o pai sobre seu batismo e profissão de fé e a orar para que Deus realizasse seu sonho. Foi assim que surgiu a tal carta para o presidente Vargas.
Após ter convencido seu pai e o pastor de que estava pronta para se batizar e fazer profissão de fé, a menina passou a planejar sua estadia entre os índios. Na sua mente, a primeira coisa que ela precisaria era estudo. Por isso escreveu a carta. O presidente respondeu. Concedeu uma vaga num colégio da cidade. Mas o Sr. Manoel não teve coragem de se afastar de sua caçula, a única filha que ainda estava sob sua guarda.

O tempo passou. E tudo parecia contrariar seus objetivos, ainda que infantis. Foi obrigada circunstancialmente a permanecer no distrito. Mas não deixou de orar. Não deixou de sonhar. Não deixou de aguardar o momento certo para lutar pelo que queria. Estudou música durante seis meses e se dedicou muito à igreja durante os últimos três anos. Porém, na semana passada, ela convenceu seu pai a permitir sua ida para a Capital com sua irmã mais velha. Perguntei o endereço. Ele hesitou. Mas após explicar minhas intenções fui contemplado com as informações que precisava.

Precisei me dedicar a outros projetos, por isso, levei ainda algum tempo para voltar a minha busca, aproximadamente quatro anos.

Lá vou eu mais uma vez. Viajar rumo a Capital da República, o Rio de Janeiro. Minha missão continua a mesma, mas a menina deve estar com aproximadamente vinte e um anos. Já não é mais tão menina. Getúlio Vargas também não é mais o presidente. Suicidou-se há quatro anos com um tiro no peito. Passei por um distrito chamado Maria da Graça. Entrei numa igreja presbiteriana. Mas, segundo informações, esta jovem não estava mais lá. Recebi informações sobre uma igreja em Turiaçu, mas ela apenas visitou a igreja durante algum tempo. Passei numa igreja no Jardim Santo Antônio e agora estou a caminho de um distrito chamado Honório Gurgel, lugar anteriormente conhecido como Munguengue.

E aqui estou eu, em lugar estranho, onde não há muito comércio nas proximidades, as ruas são de barro, e não há nem sombra de toda e qualquer violência. Vejo algum gado, cavalos, e carroças ainda transportam alguns moradores. As linhas de ônibus são escassas, apenas o 685 e o 896. Para ir ao Centro é preciso caminhar até a Av. Brasil. As lotações ainda são muito utilizadas, mas, por causa das estradas inacabadas não podem deixar os passageiros na porta de casa. Os trens funcionam, mas ainda assim nos obrigam a caminhar bastante até chegar em casa. Existem poucas residências neste lugar, apenas uma igreja cristã e vários terreiros de candomblé. Não há luz elétrica, água tratada, fogão a gás, ferro elétrico ou geladeira. O que vejo são poços cartesianos, fogões a querosene, ferros a carvão, lampiões e muito mato, uma vargem. O terreno é de posse. O rio que corta a vargem de vez em quando enche a ponto da água entrar pela janela das casas. As casas lembram senzalas e são cercadas por muro de latão. Mas alguma coisa diferente existe nesse lugar. Uma paz torna o ar mais leve, me faz esquecer das dificuldades.



Procurei me informar sobre a menina. Disseram que ela mora com seus pais na Travessa Ururaí, 16, perto da amendoeira. Cheguei. Para minha surpresa fui atendido pelo mesmo Sr. Manoel e Dona Nery. Eles me reconheceram. Entrei. Tomei novamente aquele delicioso café enquanto ele me contava como sua menina em menos de um ano comprou este terreno e os trouxe para a capital. Depois de passar algum tempo no Jacarezinho, construíram esta casa. A casa é simples como todas as outras. Falaram-me sobre o ponto de pregação e me convidaram para comparecer sexta-feira ao culto. Assim teria a oportunidade de entrevistar sua filha depois de longos anos. Pensei se aquele trabalho poderia sobreviver a tantas dificuldades. Voltei na sexta-feira. Cheguei cedo. Começou a anoitecer. Estava frio. Achei que as pessoas não teriam coragem de sair de casa para se reunir ao relento. De repente comecei a perceber uma fileira de lampiões se aproximando. As luzes pareciam incendiar toda a vargem. Fiquei intrigado observando. Os lampiões se aproximavam. As pessoas começaram a se cumprimentar e assentar perto da amendoeira. Todos se aqueciam com um belo abraço. A música começava a tomar conta do ambiente. Fui tomado por uma intensa alegria e um longo e inesperado bem-estar. Até esqueci como foi difícil chegar aqui. As crianças parecem felizes. As famílias se dedicam ao trabalho e se revezavam nas atividades. Pude conhecer aquela jovem menina, com olhos profundos, emoção a flor da pele, de convicção e coragem invejável. O trabalho estava iniciando. Enquanto o Brasil lutava por igualdade, pessoas eram seqüestradas, espancadas, famílias eram removidas pelo governo para a Cidade de Deus, e a musicalidade desafiava os poderosos. Um grupo buscava a Deus e intercedia pelas dificuldades da nação. Acreditava que só Deus podia mudar a história. Os anos foram passando e tive a oportunidade de não só conversar com aquela jovem, mas de me aproximar da congregação e freqüenta-la durante alguns anos.

O conselho da Igreja Presbiteriana no Jardim Santo Antônio, responsável pelo trabalho, com o passar do tempo organizou e apoiou o trabalho enviando obreiros. Algumas famílias presbiterianas que vieram morar nas redondezas integraram o trabalho, como os Vieira, Boechat, Ferreira, Azevedo, Barbosa, dentre outras. Quando o Sr. Manoel Barbosa foi eleito presbítero na agora Igreja de Honório Gurgel iniciou-se o trabalho de Escola Dominical que crescia assustadoramente, principalmente entre as crianças. A congregação agora se reunia também aos domingos. Como o espaço ficou pequeno, as reuniões começaram a ser realizadas também na casa dos Boechat.

Em 1961 morreu o Presb. Manoel Barbosa. Pensei que o trabalho fosse parar, mas Deus providenciou outros meios. O trabalho já estava solidificado.
Em 1963 tivemos o primeira ceia de natal em baixo da amendoeira. Todos estavam felizes. Foi uma grande festa.



As pessoas que se integravam à igreja precisavam ser batizadas na Igreja de Honório Gurgel. Muitos, por causa das dificuldades de locomoção foram para a igreja batista. Mas, ainda assim, o trabalho cresceu tanto que o terreno dos Boechat passou a ser pequeno demais para o trabalho. Restavam duas alternativas: organizar melhor ou encerrar o trabalho. Alguns irmãos foram ao conselho e pediram para que o trabalho fosse organizado e fortalecido. A congregação começou orar para que Deus providenciasse um lugar para a continuidade. O vizinho da frente ofereceu seu terreno. A congregação se esforçou e comprou. Agora só faltava construir o templo. Os adolescentes vendiam pipoca, angu e tudo o que as mulheres faziam. Os jovens faziam gincanas, convidavam os vizinhos e o trabalho enchia. Tudo era feito na base do mutirão. As pessoas gostavam de ajudar. Até os criminosos da região simpatizavam com os crentes. Não demorou muito para o templo ser construído e a rua ficar conhecida como Rua da Igreja.

A UMP foi organizada em 14 de janeiro de 1968 e a SAF em 06 de março do mesmo ano. O tempo estava passando e o sonho de transformar a congregação em igreja parecia estar bem perto da realidade. Algumas enchentes levaram toda a documentação da igreja nesse período. Muitas reuniões eram realizadas com os crentes inundados até os joelhos.

Certo dia o Rev. Roosevelt, pastor da Igreja de Honório, sugeriu que fosse feita uma série de Conferências Evangelísticas. A Conferência foi tão abençoada que se estendeu por quinze dias. Dela percebemos que estava na hora de organizar a igreja. Assim os irmãos enviaram um abaixo assinado ao Presbitério Guanabara que, nomeou uma comissão organizadora para tratar do assunto. Após algumas reuniões e muita oração, em 03 de janeiro de 1971 organizou-se a Igreja Presbiteriana de Parque São Luiz. O sonho se tornou realidade.

Confesso que em alguns momentos duvidei da possibilidade desta obra ir até o fim. Mas, a cada dificuldade a congregação parecia sair mais fortalecida. Alguns irmãos até caíram no rio. Mas nunca desistiram.

Cheguei até aqui ocasionalmente atrás de uma entrevista, mas percebi que Deus está no controle de tudo. Nada acontece por acaso. Não acreditava muito em milagres. Porém, o que aconteceu aqui nessa vargem não pode ser outra coisa.



Uma missionária foi para tão longe, desafiou os pais, influenciou uma menina de treze anos que sonhou ser missionária entre os índios. Lutou por isso, mas tudo deu “errado”. Deus a trouxe para o Rio de Janeiro e a abençoou. Ela conseguiu comprar seu terreno com 18 anos e trouxe seus pais para a Capital. Aqui organizou o trabalho com seus familiares, vizinhos e amigos. Viu muita gente sendo convertida. Casou-se. Teve filhos. Ajudou a construir um templo. Mudou o nome da sua rua com testemunho da sua comunidade. Auxiliou pastores. Ensinou crianças. Acolheu, chorou, lutou, venceu.

Hoje já não temos mais a vargem; a amendoeira já secou; mas a semente que foi plantada ainda permanece produtiva. Agora somos a 2ª Igreja Presbiteriana de Honório Gurgel. A igreja dos Barbosa, Gomes, Marques, Scherrer, Azevedo, Silva, Nascimento, Sobrinho, Souza, Alves, Maximiano, Mesquita, Figueiredo, Teixeira, Boechat, Couto, Torres, Vieira, Reis, Oliveira, Marçal, Ferreira, Castro, Santos, Alves, Mendes, Lima, Campanha, Ramos, Viana, Moreira, Ribeiro, Busquet, Lopes, Barreto, Amorim, Macedo, Borges, Ventura, Monteiro, Barros, Coimbra, Quadros, Pinto, Dutra, Prata, Almeida, Nunes, Veiga, Manso, Santana, Macedo, Cardoso, Alves, Queiroz, Ximenes, Ângelo, Araújo, Delfim, Pereira, Magalhães, Honorato, Miranda, Buçard, Rezende, Basílio, Coutinho, Martins, Dias, Cruz, Scassulin, Fernandes, César, Peixoto, Grota, Fidelis, Melo, Cunha, Marinho, do Coral Manhã Radiosa, Anelo Por Cristo, Estrela da Manhã, Maravilhas de Jesus, Parousia, da SAF, UPH, UCP, UMP, UPA, EBD e muitos outros. A igreja do amor. Do pastor do amor, Rev. Vicente de Souza. De tantos outros pastores que fizeram parte da nossa história, do milagre do Parque São Luiz. Se você é desses que não acredita em milagres, olhe ao seu redor. Agradeça a Deus! Agradeça a esta adorável menina, nossa adorável professora e fundadora Dilsa Barbosa. Com estas palavras homenageamos a todos os nossos antepassados, aos que fundaram esta congregação. As águas levaram os documentos, mas Deus mantém a história viva em nossos corações.

Parabéns para a minha amada 2ª Igreja Presbiteriana de Honório Gurgel!

Debaixo da Amendoeira
Por Rev. Junio Cesar R. Lima

A igreja começou debaixo de uma amendoeira.
O lugar parecia estranho. Não havia comércio nas proximidades. As ruas eram de barro, trafegadas por gado, cavalos e carroças transportando moradores.
As linhas de ônibus eram escassas, apenas o 685 e o 896. Para ir até o Centro era preciso caminhar até a Av. Brasil. As lotações eram muito utilizadas, mas, por causa das estradas inacabadas, não se podia saltar à porta de casa. Os trens funcionavam, mas, ainda assim, os obrigava a caminhar bastante até chegar em casa. Existiam poucas residências naquele lugar. Não havia luz elétrica, água tratada, fogão a gás, ferro elétrico ou geladeira. Muitos eram os poços cartesianos, fogões a querosene, ferros a carvão e lampiões. A quantidade de mato era imensa, uma vargem. Os terrenos eram de posse. Um rio cortava a vargem e, de vez em quando, enchia a ponto da água entrar pela janela. As casas lembravam senzalas, eram cercadas por muro de latão. Durante a noite dava para sentir a proximidade da lua e tentar contar as inúmeras estrelas refletidas através da escuridão.

No meio da Travessa havia uma amendoeira, sólida, de madeira vermelha, frutos meio ácidos, capaz de proteger do sol com suas belas folhas e resistir a chuva. Toda sexta-feira lampiões cortavam a vargem numa fila que parecia incendiá-la. Debaixo da amendoeira havia movimento, sentimento. As pessoas achegavam, sentavam, cantavam, oravam, choravam, se alegravam e abrigavam debaixo da amendoeira. Aos seus pés fincavam raízes, pensavam em crescimento, suportavam sol e chuva, se dedicavam ao Evangelho e transmitiam paz à comuidade. Crianças felizes. Famílias estáveis e dinâmicas, apesar dos poucos recursos, fundaram uma igreja, mudaram o nome da Travessa,  construíram um templo. As folhas até secavam e caíam, mas a vida continuava próxima da amendoeira.

A amendoeira foi tragada pelo tempo, cumpriu seu destino. Os lampiões se apagaram. Mas ainda assim todos se lembram dos dias passados debaixo da amendoeira. Suas folhas deixaram marcas em muitos caminhos. Quem teve a feliz idéia de plantar aquela amendoeira? Não importa. Ela ainda anuncia que uma árvore pode secar e morrer, mas aquilo que Deus plantou permanecerá para sempre como uma árvore junto as águas, imarscessível, no devido tempo dando seu fruto. Assim começamos. Assim iremos e permaneceremos até o último dia.